Desafios e Esperanças da Pastoral do Turismo no Brasil

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Desafios e Esperanças da Pastoral do Turismo no Brasil

Padre Manoel de Oliveira Filho

A Pastoral do Turismo é uma ação de evangelização da Igreja e só pode ser compreendida em plenitude a partir desta perspectiva. Por isso é Pastoral: ação de Jesus, Bom Pastor, que cuida de todas as pessoas envolvidas com a atividade turística. Se ação de Jesus Bom Pastor, é ação de evangelização, consequentemente.

O motivo para a igreja se envolver com estas pessoas, tocar a realidade destas pessoas, está em expresso no documento do Concílio Vaticano II do qual tiramos a frase que ilustra este primeiro slide.

Não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração
 (Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, n. 1).

De fato, nada há na experiência humana que não toque o coração da Igreja. O coração dela sempre faz ecoar tudo que diz respeito à ao ser humano e não podia ser diferente com a atividade turística. Esta frase inicia a carta para o Dia Mundial do Turismo que o Pontifício Conselho para os migrantes e itinerantes publicou para o hoje.

A mesma carta continua falando da necessidade de se fazer próximo, como vemos no segundo slide:

“É indispensável que a Igreja saia e se faça próxima aos viageiros para oferecer uma resposta apropriada e pessoal a sua busca interior.”

Percebemos aqui um eco da Exortação Apostólica Evangelli Gaudiun quando afirma que o pastor deve ter cheiro do rebanho. Se toda a ação da Igreja é reflexo da ação do Bom Pastor, ela precisa ter cheiro do rebanho. As ovelhas que fazem parte do mundo do turismo não estão fora deste horizonte. A Pastoral do Turismo é sinal do Bom Pastor, desejando fazer-se próximo ao rebanho. A proximidade do viageiro deve existir, justamente, para que ele se abra a esta resposta de busca interior. Cada viagem pelas estradas do mundo é também uma viagem pelas estradas do coração. Não há, portanto, viageiro que não almeje, mesmo sem saber, um encontro profundo consigo mesmo e, consequentemente, com Deus.

A carta continua, como podemos ver no terceiro slide, que as comunidades paroquiais e o pessoal do turismo deve estar preparado para acolher esta busca de quem viaja. Uma sensibilidade, uma capacidade de perceber o não dito, de ir além do que é expresso de forma clara, um ouvir aquele pedido por algo mais do que apenas a visão do corpo pode oferecer.

É esta sensibilidade aguçada que momentos como estes devem despertar no profissional de turismo que tem como raiz elementos de fé.

Na Encíclica Laudato Si, vemos no próximo slide, o Papa Francisco afirma:

A espiritualidade cristã integra o valor do repouso e da festa. O ser humano tende a reduzir o descanso contemplativo ao âmbito do estéril e do inútil, esquecendo que deste modo se tira à obra realizada o mais importante: o seu significado. Na nossa atividade, somos chamados a incluir uma dimensão receptiva e gratuita, o que é diferente da simples inatividade
    (Laudato si’, n. 237).

O repouso e a festa têm, surpreendentemente, talvez, para alguns aqui presentes, uma dimensão de transcendência que faz com façam parte da nossa espiritualidade. E o que procura o turista senão o repouso e a festa, mesmo que seja a festa do olhar, dos sentidos, na contemplação do belo, no sabor de novas comidas, nas várias manifestações culturais?

Repousar do cotidiano, da dureza do dia a dia, da rotina que oprime… Se vividos na fé, o repouso e a festa tocam a eternidade de Deus. O profissional de turismo precisa ser agente catalisador desta demanda de quem viaja, precisa ser aquele que lendo nas entrelinhas dos sonhos, vislumbra um horizonte largo, superior ao fato dado.

A carta que nos ajuda a celebrar o dia de hoje prossegue, como vemos no slide a seguir:

A Igreja coopera para fazer do turismo um meio para o desenvolvimento dos povos, especialmente dos mais desfavorecidos, encaminhando projetos simples, mas eficazes. A Igreja e as instituições devem, no entanto, ser sempre vigilantes a fim de evitar que mil milhões de oportunidades se tornem mil milhões de riscos, cooperando na salvaguarda da dignidade pessoal, dos direitos do trabalho, da identidade cultural, do respeito ao ambiente, etc.

Como pessoas e profissionais de fé, devemos estar atentos a estes grandes desafios, devemos ser os olhos da Igreja, até porque, somos Igreja. Se existem perigos de que as mil milhões de oportunidades se tornem mil milhões de riscos, devemos ser mil milhões de olhos atentos, cuidadosos, defendendo a natureza, preservando a infância, salvaguardando o patrimônio de todos aqueles e aquelas que possam ferir a dignidade humano, seja no preconceito contra as culturas diferentes, na atividade turistica sexual ou predatória, no uso indiscriminado dos recursos naturais ou quaisquer outras formas desequilibradas de viver o descanso e a festa.

O trabalho, o trabalhador, deve ser outro aspecto do nosso cuidado pastoral. Não podemos nos esquecer de que todos os profissionais envolvidos com a atividade turística têm direito ao salário justo e à dignidade no seu exercício profissional.

A carta à qual eu já me referi e que comemora o dia de hoje nos fala de mil milhões de oportunidades.

De fato, a Pastoral do Turismo se debruça sobre estas infinitas possibilidades de evangelizar através do turismo. O turismo, portanto, como forma de se chegar às pessoas, como instrumento de Deus para anunciar a Boa Notícia aos viajantes, às comunidades visitadas e aos profissionais de turismo como agora fazemos. São mil milhões de oportunidade para fazer acontecer este horizonte novo através do Turismo, como vemos neste slide:

Mil milhões de ocasiões para transformar a viagem em experiência existencial. Mil milhões de oportunidades para nos tornarmos artífices de um mundo melhor, conscientes da riqueza carregada na mala de cada viageiro. Mil milhões de turistas, mil milhões de oportunidades para nos tornarmos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projeto de paz, beleza e plenitude” (Laudato si’, n. 53).

Citando a Laudato Si, a carta nos oferece uma reflexão sobre o grande número de oportunidades sem esquecer de nos alertar que, se existem oportunidades, também existem desafios enormes para fazer com que elas se tornem realidades, através da nossa ação pastoral.

Por isso, como podemos ler neste próximo slide:

“A pastoral do turismo é a ação da Igreja que visa evangelizar com novos métodos as pessoas envolvidas na prática do turismo, tanto aquelas que se deslocam pelos mais variados motivos como as que estão envolvidas em todo processo.”

Um grande desafio para nossa pastoral é, portanto, capilarizar a consciência de que todas as atividades turísticas são, mesmo quando o turismo não é religioso, possibilidade de evangelização, caminho de contemplação do sagrado e possibilidade de amar concretamente através do respeito as culturas, as pessoas e a natureza.

Como podemos ver através do próximo slide, fazemos isso acolhendo, preparando, prevenindo e defendendo.

Quem chega tem o direito de ser acolhido, inclusive e especialmente em nossas comunidades cristãs. Vemos no próximo slide como fazer isso concretamente:

  • A comunidade eclesial precisa se preparar para receber quem chega.
  • Se é fiel, tem o direito de saber os horários das atividades religiosas e, inclusive, ser incluído na vida pastoral.
  • Se não é fiel, deve ser acolhido para conhecer, não apenas, a estrutura mas a vida da comunidade.
  • Deve-se oferecer condições objetivas para que o turista participe da vida da comunidade, como folheteria em outros idiomas para as partes fixas da Missa

Para bem acolher, precisamos preparar nossas comunidades, com espírito de acolhida e condições objetivas como podemos ver no slide seguinte:

  • Facilitar os caminhos, sob todos os aspectos para a chegada do visitante.
  • Lugares e pessoas devem estar prontos para o diferente. O outro é sempre diferente (cultura, língua, mobilidade…)
  • Os espaços de visitação precisam estar sinalizados e abertos para o visitante que chega a qualquer hora.

É tarefa nossa abrir caminhos e espaços, dar acessibildiade nos lugares, na comunidade e no coração.

Por outro lado, numa ação preventiva e profética, precisamos prevenir qualquer  forma de violência mais ou menos velada contra pessoas, culturas, natureza, patrimônio.

Neste sentido, também precisamos prevenir toda forma de exploração do trabalho e do trabalhador no turismo. De fato, ainda existem muitas formas de exploração, de sub emprego, de salários injustos e, consequente, deteriorização da dignidade humana no mundo do trabalho.

O olhar atento da Pastoral do Turismo se lança sobre este desafio da prevenção, não esperando que, por primeiro, ocorra.

Assim, neste slide, podemos ler o que prevenir:

  • Os ataques à natureza e ao patrimônio
  • O desrespeito à cultura local
  • À degradação humana
  • A informação é a grande arma para este trabalho. O turista precisa estar preparado para, desde a programação da viagem, para este encontro com o diferente.

O como prevenir demanda de estudos e planejamentos. Por isso a necessidade de uma articulação pastoral em todas as diocese do Brasil, especialmente, naquelas em que a atividade turística é mais relevante.

Mas, se os fatores acima descritos já acontecem enão conseguimos prevenir o seu surgimento, cabe-nos defender, especialmente:

  • Os mais fracos
  • Vulneráveis
  • Excluídos
    • O turista vem de ônibus – Quem dirige o veículo?
    • O turista compra a comida – Quem cozinha?
    • O turista anda pela cidade – Quem varre a rua?

Esta é a nossa missão. Como Pastoral, ação do Jesus, Bom Pastor, no mundo do turismo, precisamos tomar o partido daqueles que são os prediletos do Cristo.

Este é um desafio e um horizonte, esperança possível da Pastoral do Turismo.

Acreditamos vivamente que é possível fazer esta diferença na atividade turística e acreditamos que os profissionais, agentes, guias, proprietários de agencias, enfim, vocês aqui presentes, representando milhares de profissionais espalhados por todo o Brasil, são nosso grandes parceiros. Alias, são Pastoral do Turismo e comungam destes nossos pensamentos, transformando-os em prática no cotidiano do vosso trabalho que, para nós, é missão.

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