Uma pastoral para o turismo

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Uma pastoral para o turismo

Padre Manoel de Oliveira Filho, coordenador nacional da Pastoral do Turismo

Quando falamos de uma pastoral católica para o turismo corremos o risco de, imediatamente, pensar no turismo religioso. Esta é uma dimensão encantadora e sempre entendemos que é possível fazer mais pela evangelização a partir da religiosidade popular que leva milhares e milhares de pessoas, todos os anos, aos santuários espalhados pelo mundo.

Sim, o Turismo Religioso merece a nossa atenção enquanto Pastoral do Turismo, mas não exclusivamente. Vejamos como a Igreja pretende trabalhar a sua ação pastoral neste fascinante, complexo e contraditório mundo do turismo.

São Gregório de Nissa, lá pelo 4º século do cristianismo, portanto, bem no início da Igreja, proclamava que “o que não é assumido não é redimido”. O contexto era a de contradizer uma heresia dos primeiros tempos segundo a qual Cristo não tinha uma alma humana. Nesta mesma linha de raciocínio, encontramos o Mestre convocando os seus seguidores a serem “fermento na massa” (Mt 13, 33), “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5, 13-14). Abraçando todos estes ensinamentos, no Documento Gaudiun et Spes do Concílio Vaticano II, a Igreja afirma que “não existe realidade verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (GS 1).

Bastam estas citações bíblicas, da Patrística e do Magistério recente para compreender que a ação de uma pastoral da Igreja não pode nunca se restringir ao âmbito interno, mas deve estar aberta às realidades todas da existência humana, com suas riquezas e contradições, fazendo leitura, a partir deste elementos acima utilizados, para elaborar uma ação que seja evangélica e evangelizadora.

Não poderia ser diferente com a Pastoral do Turismo. Se o turismo é uma realidade multifacetada, carregada de mil bilhões de possibilidades, como nos lembrou o documento do Pontifício Conselho da pastoral para os Migrantes e itinerantes na Mensagem para o Dia Mundial do Turismo de 2015, não podemos deixar que nenhuma destas possibilidades fique de fora de uma ação de Igreja que tem por meta evangelizar o mundo do turismo.

A PASTUR é, portanto, a Pastoral do Turismo e não a Pastoral do Turismo Religioso.

Partindo desta premissa, a Pastoral do Turismo na América Latina e Caribe, em articulação a partir do Conselho Episcopal Latino Americano, propõe quatro linhas de ação fundamentais:

  1. Formação de Agentes – De fato, para abrir os horizontes e oferecer todo o leque de possibilidades de ação, em vista de uma eficácia evangelizadora, é preciso ajudar o agente a construir uma reflexão sobre a Pastoral. No Brasil o grande espaço formativo são os Encontros Nacionais como o que ocorrerá entre os dias 09 e 12 de novembro em Caldas Novas. Regionalmente, o mesmo vem acontecendo em encontros, dias de espiritualidade e  seminários que versam sobre os mais variados temas referentes à PASTUR. Manaus, Belém, Salvador, Goiânia, Cachoeiro do Itapemirim e Niterói são algumas experiências bem sucedidas nesta abordagem.
  2. Turismo de Base Comunitária – Um modelo de turismo sustentável, propositivo, com preservação do Meio Ambiente e dos legados culturais. Turismo que articula ações de mobilização social e resgate da cidadania e da dignidade das populações marginalizadas. Turismo que organiza comunidades, tornando-as protagônicas no seu olhar sobre o futuro. Este é o modelo proposto pelo Turismo de Base Comunitária, ainda pouco conhecido no Brasil mas já existente em comunidades rurais, ribeirinhas, indígenas e quilombolas. É um campo de ação a ser desbravado por nossos núcleo de PASTUR, em vista da geração de emprego e renda e em parceria com outras pastorais sociais como a Pastoral Afro, CPT e dos Pescadores, bem como com comunidades nas periferias das nossas cidades.
  3. Denúncia contra a exploração sexual e o trafico de pessoas – Sendo Pastoral Social, a PASTUR tem uma forte conotação profética.  Como tudo que é humano, a atividade turística é carregada de contradições. É sempre perigoso que as mil bilhões de oportunidades de fazer o bem, se pervertam em mil bilhões de oportunidades de aviltar a dignidade humana, violentar a natureza e o patrimônio e desrespeitar as culturas. De todos estes elementos, a exploração sexual, especialmente de crianças e adolescentes, e o tráfico de pessoas clamam aos céus. Infelizmente são realidades, muitas vezes, encaradas como normais em destinos turísticos de todo mundo. Pastorais sociais como as da Mulher Marginalizadas, do Migrantes e Itinerantes e da Mulher Marginalizada já desenvolvem ações que podem ser utilizadas pela PASTUR. Só o que não é possível é o fechar olhos para o grito dos inocentes.
  4. Turismo Religioso e Cultural – Santuários, grandes festas, romarias e peregrinações, bem como templos históricos, tesouros da cultura do nosso país, devem se constituir em centro de ação evangelizadora. A contemplação do belo deve levar à contemplação do Belo eterno que é o próprio Deus. A ida aos santuários, tanto na perspectiva emissiva como receptiva deve favorecer um maior compromisso com o Cristo, a Igreja e Sociedade. A Pastoral do Turismo pode ser uma instância aglutinadora para fazer isso acontecer, em parceria com as pastorais da cultura e dos santuários.

Por fim, não podemos nos esquecer que estas quatro dimensões não existem de forma estanques, mas articulada entre sim, com outras pastorais e organizamos e com agentes sociais. Se assim buscarmos, estaremos construindo uma autentica pastoral para o turismo no Brasil.

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