VIAGENS MOTIVADAS PELA FÉ

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VIAGENS MOTIVADAS PELA FÉ

Pe. Manoel de Oliveira Filho

São Gregório de Nissa, lá pelo 4º século do cristianismo, portanto, bem no início da Igreja, proclamava que “o que não é assumido não é redimido”. O contexto era o de contradizer uma heresia dos primeiros tempos segundo a qual Cristo não tinha uma alma humana. Nesta mesma linha de raciocínio, encontramos o Mestre convocando os seus seguidores a serem “fermento na massa” (Mt 13, 33), “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5, 13-14). Abraçando todos estes ensinamentos, no Documento Gaudiun et Spes do Concílio Vaticano II, a Igreja afirma que “não existe realidade verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (GS 1).

 

Bastam estas citações bíblicas, da Patrística e do Magistério recente para compreender que a ação pastoral da Igreja não pode nunca se restringir ao âmbito interno, mas deve estar aberta às realidades todas da existência humana, com suas riquezas e contradições, fazendo leitura, a partir deste elementos acima utilizados, para elaborar uma ação que seja evangélica e evangelizadora.

É para responder a este apelo que existe a Pastoral do Turismo. Em 2017 foram 1 bilhão e trezentos mil  turistas internacionais. Ou seja, 1,3 milhão de pessoas se deslocando de uma país para o outro para descansar ou fazer negócios. Sem falar dos 92 milhões de turistas internos, que circulam de um lado para o outro dentro do Brasil. Diante de um horizonte destes, de uma messe destas, como não desenvolver um trabalho de pastoral que atenda todas as demandas religiosas de tantos viajantes, independente da sua motivação inicial? A Igreja, “especialista em humanidade”, como proclamou o Beato Paulo VI na Assembleia da ONU de 1965, não poderia ficar indiferente a esta dimensão fundamental da atividade humana, em quantidade tão significativa.

Por isso, uma Pastoral do Turismo. Para, pela força do Evangelho, levar Jesus Cristo a tudo que diga respeito ao turismo, em todas as suas dimensões. Inclusive, o Turismo Religioso.

É próprio das grandes religiões ter lugares sagrados e incentivar os seus fiéis a irem até esse lugares para uma experiência religiosa profunda, de reavivamento da fé e da pertença ao grupo. Com o cristianismo não foi diferente. Logo depois da Ascensão de Jesus, com o anúncio da Boa Nova e formação de comunidades distantes de Jerusalém, os “seguidores do Caminho” (At 22,4) começaram a buscar a Cidade Sagrada para visitar o túmulo de Jesus. Assim, as grandes peregrinações começaram para os cristãos. Depois do túmulo e dos lugares por onde Jesus viveu, o movimento se expandiu para os túmulos dos apóstolos, Pedro e Paulo em Roma, por excelência. Os túmulos dos santos e santas, os locais de aparições da Virgem e os grandes santuários devocionais completam a lista dos grandes destinos de peregrinação que, no linguajar técnico, chamamos de Turismo Religioso.

O que caracteriza o Turismo Religioso, então? O fato de ser motivado pela fé. O que faz com que um peregrino adquira uma passagem, reserve um hotel e empreenda um caminho rumo ao seu lugar de devoção não é tanto a beleza dos templos ou da paisagem, o sabor especial da gastronomia ou o conforto dos meios de hospedagem, embora tudo isso faça parte da demanda segunda de cada viajante. A decisão nasce da quantidade de força espiritual que ele destino tem para atrair o peregrino, mesmo que seja uma simples gruta, no meio do sertão. Não podemos desprezar a necessidade de qualidade do destino para bem acolher o turista. Mas esse não é o motivo para que ele saia da sua casa.

Se o Turismo Religioso é motivado pela fé, assim ele deve ser vivido e assim ele deve ser oferecido.

Talvez a proposta da vivência de fé numa experiência de peregrinação possa parecer restritiva a outras dimensões da atividade turística como a fruição das belezas naturais e culturais, a degustação da culinária local, a perspectiva lúdica do passeio, a convivência fraterna, a festa, a alegria. O turista religioso, motivado pela fé, tem direito a tudo isso. Além das praticas religiosas, especificamente, a dimensão recreativa também pode fazer parte de uma viagem de fé. Mas, como tudo que diz respeito ao Cristão, em todas as dimensões da sua vida, o “diapasão” que garantirá o tom correto a esta dimensão numa viagem religiosa é a capacidade de ver e viver tudo segundo o projeto de Jesus Cristo, na fidelidade ao Batismo.

A primazia, no entanto, deve ser daquela motivação primeira. A oração, as praticas devocionais, a vivência sacramental devem ocupar o primeiro lugar em uma viagem de fé. O peregrino deve dar o melhor de si para estes momentos. Os profissionais de turismo devem possibilitar ao turista todas as condições necessárias para que ele viva estes momentos de forma satisfatória. O Orientador Espiritual da viagem deve disponibilizar tempo e energia para o atendimento espiritual dos fiéis, compreendendo a viagem com uma parte da sua missão evangelizadora. A comunidade que envia os peregrinos deve se manter  em comunhão com os que viajam, na oração constante e intercessão profunda. Nenhuma outra atividade deve desvirtuar aquela intenção primeira, aquela opção fundamental. Toda a viagem deve convergir para a Mística do Caminho, do Peregrinar, do buscar a Deus.

Se por um lado de uma viagem de fé está quem viaja e suas condicionantes, por outro está que acolhe. A auto compreensão sobre a identidade de fé do lugar que acolhe o peregrino é fundamental para que a viagem ganhe sentido e seja fiel aos seus propósitos.

O lugar de peregrinação é sagrado. Ou seja, lugar separado por Deus, por uma graça especial, para possibilitar um encontro profundo com Ele. Se assim o é, assim deve ser compreendido por quem dele cuida, nas mais variadas instâncias e por todos que são tocados na vida por ele. A sacralidade do lugar em si deveria ser encontrada, de alguma forma, no ambiente circundante, nas pessoas do lugar, nos serviços oferecidos. Um atmosfera, um modo de vida. O habitante do  local deveria ser o primeiro a amar e servir por conta da graça especial que ali foi derramada.

É o  diálogo entre o que chega e o que está, a alegria do encontro entre as expectativas, que faz de um lugar de peregrinação tão especial.

O empenho de todos que desfrutam do Turismo Religioso, seja como peregrino ou comunidade acolhedra, deve ser no sentido de que esta realidade aconteça e Deus possa realizar a sua divina vontade de salvar pessoas, animar comunidades e fortalecer a sua Igreja pela força do Turismo Religioso.

 

 

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