Congresso de Turismo Religioso – Salvador, 09-12.05.18 Abertura

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Congresso de Turismo Religioso – Salvador, 09-12.05.18 Abertura

Ano após ano, fim de semana após fim de semana, milhões de pessoas viajam, sem necessidade alguma ou obrigação aparente. Entram em filas de carro, de rodoviárias ou de aeroportos. Tudo, então, se torna pequeno e movimentado: as praias, as lojas, os restaurantes, os teleféricos. Descansar, cansa, pois há longas filas para enfrentar, engarrafamentos, horas e horas de espera em lugares procurados por muitos. Se tais condições de movimento, de cansaço e de espera fossem impostas aos trabalhadores durante suas horas de trabalho, os sindicatos certamente interviriam.

O que antes era privilégio de alguns poucos, hoje está ao alcance de multidões. As férias e as viagens são uma conquista social. Mas são também um peso para muitos, pois, como muitas pessoas se movimentam, paga-se um preço muito alto pela liberdade de ir e vir. Onde isso vai parar?

Os habitantes de muitas cidades dedicam 40% do tempo livre de que dispõem para viajar e, assim, conhecer outros lugares: 30% desse tempo em passeios curtos e 10% em viagens de férias.

Em nossos dias, muitos viajam não mais para fazer novas descobertas ou aprender alguma coisa; a necessidade de viajar foi criada pela sociedade. “As pessoas viajam porque não se sentem mais à vontade onde se encontram, seja nos locais de trabalho, seja onde moram. Sentem necessidade urgente de se desfazer temporariamente da rotina massificante do dia a dia do trabalho, da moradia e do lazer, a fim de estar em condições de retomá-la ao regressarem.”[1] O trabalho torna-se um peso, o cotidiano, monótono; o relacionamento humano nos escritórios e fábricas, frio. Estressadas, esgotadas física ou psiquicamente, vazias interiormente, entediadas, as pessoas viajam. Querem libertar-se, desligar-se, refazer suas energias, desfrutar da independência, manter contatos, descansar, ser felizes. Viajam para viver, para sobreviver. Isto tudo é facilitado por salários mais elevados e por maior disponibilidade de tempo livre. A sociedade, que aprisiona o ser humano, oferece-lhe a expectativa de ser feliz “longe”. Assim, o tempo livre e as férias tornaram-se também uma indústria. Trabalhamos para sair de férias, e temos necessidade das férias para retomar o trabalho. “Se não existisse o turismo… seria necessário construir clínicas e sanatórios, para que o ser humano se recuperasse desse cansaço. O turismo funciona como terapia da sociedade, como válvula que faz manter o funcionamento do mundo de todos os dias.”[2] O ser humano viaja para perceber que as coisas não são tão ruins assim em casa, e que talvez sejam até melhores do que em qualquer outro lugar. Ele viaja para voltar. Mas, para onde tudo isso nos levará? As carências que sentimos na vida cotidiana não podem ser compensadas com alguns breves momentos de liberdade e de lazer criativo e de promessa de felicidade. Nossa sociedade tem descoberto que não se compra a alegria e a felicidade em shopping centers.

Por outro lado, o desenvolvimento da indústria do turismo começa a trazer problemas: a destruição da natureza e de monumentos históricos; a perda de qualidade de vida para os receptores dos turistas; incertezas dos que vivem do turismo sazonal; multiplicação de construções, busca do lucro imediato a qualquer custo; crescimento do turismo sexual etc.

O que fazer para que as férias e o lazer experimentados longe de casa não sejam apenas uma fuga do cotidiano e dos problemas, mas também uma oportunidade de enriquecimento interior, de exercício da liberdade, de maior compreensão mútua, de novos laços de solidariedade? Como conciliar o descanso dos que moram em países industrializados com a luta pela sobrevivência diária de milhões de seres humanos? Pode o Turismo ajudar-nos a construir um mundo melhor? Enfim, como dar uma “alma” ao Turismo?

A Igreja, de sua parte, constata que, além da multidão de turistas, há multidões que deixam suas casas em busca de um santuário. São os peregrinos, os romeiros. Sonham com uma peregrinação, fazem economia durante meses, enfrentam longas viagens para chegar ao santuário desejado. Para quê? Nos lugares sagrados, o cristão celebra a alegria de se sentir imerso em meio a tantos irmãos, caminhando juntos para Deus que os espera. A decisão de caminhar em direção ao santuário já é uma confissão de fé, o caminhar é um verdadeiro canto de esperança e a chegada é um encontro de amor. Um breve instante condensa uma viva experiência espiritual (cf. DA 258 e 259).

Para quê viajar? Para quê ir a um santuário ou a algum lugar sagrado? Espero que este Congresso nos ajude a encontrar tais respostas.

 

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

[1] Jost Krippendorf, SOCIOLOGIA DO TURISMO – Para uma nova compreensão do lazer e das viagens”, São Paulo, Editora Aleph – 3ª edição revisada, 2003 – Introdução.

[2] Id.

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